PICASSO, DALÍ, DUCHAMP E O HIPERESPAÇO

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Era improvável que o tuberculoso, penosamente pobre e patologicamente tímido Georg Bernhard Riemann, um homem que sofria de repetidos colapsos nervosos, pudesse desencadear uma completa revolução no pensamento científico e cultural. Mas em junho de 1854, na Universidade de Gottingen na Alemanha, Riemann fez uma célebre apresentação de seu ensaio “Sobre as hipóteses que residem nos fundamentos da geometria” expondo ao mundo as propriedades do espaço de múltiplas dimensões e fazendo desmoronar a geometria euclidiana que havia vigorado por dois mil anos.

A revolução riemanniana influenciaria fortemente as artes, a literatura e a filosofia na Europa pelas décadas que se seguiram. Sessenta anos após a conferência, Einstein usaria a geometria de Riemann para explicar a evolução do universo e 130 anos depois, os físicos usariam a geometria de 10 dimensões como base para uma das mais fortes candidatas à teoria de tudo. O cerne do trabalho do matemático foi o entendimento de que as leis da física se tornam mais simples num espaço de múltiplas dimensões.

Nossos sentidos são capazes de perceber apenas 3 dimensões: comprimento, largura e altura. Sendo assim, um objeto no espaço pode se mover apenas para frente e para trás, para cima e para baixo e para os lados. As ideias de Riemann fizeram com que os físicos passassem a considerar que o espaço pode sofrer mudanças na sua densidade, distorções e ondas que sejam provocadas por eventos que ocorrem em dimensões imperceptíveis aos nossos sentidos. Numa analogia simples, assim como os peixes em um lago estão limitados a perceber o lago como sendo todo o seu universo, nossos cérebros estão limitados a perceber o espaço tridimensional como sendo tudo que há.

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Entre 1870 e 1920, o interesse por dimensões adicionais, em especial pela “quarta dimensão”, atingiu o ápice e conquistou a imaginação popular. Oscar Wilde, Dostoiévski e Marcel Proust foram alguns dos escritores que trouxeram a ideia de uma quarta dimensão para dentro de suas obras. O matemático Charles L. Dodgson, que era professor na Universidade de Oxford, se eternizou na literatura e no folclore infantis com o pseudônimo de Lewis Carroll, incorporando as ideias matemáticas de Riemann em Alice no país das maravilhas. O buraco do coelho de Lewis e o espelho de Alice são interpretações de buracos de minhoca, portais para outro universo adaptados para o público infantil.

A quarta dimensão também inspirou enormemente as obras de Picasso, Marcel Duchamp, Miró, Kandinsky e Dalí e teve extrema influencia no desenvolvimento do Cubismo e do Expressionismo, dois dos mais atuantes movimentos artísticos do século XX. Na época, os artistas interpretavam a quarta dimensão como uma dimensão espacial (diferente da dimensão temporal que conhecemos pós teoria da relatividade). Acreditava-se que, se alguém pudesse se transportar para a quarta dimensão, seria capaz de ver todas as perspectivas de um evento ao mesmo tempo. Mas como projetar essas perspectivas na a tela? A resposta de Picasso para o dilema foi, obviamente, o Cubismo.

Dalí passou a procurar o matemático Thomas Banchoff para se aconselhar e buscou inspiração na física teórica sobre a quarta dimensão até a sua morte, em 1989. Em 1958, ele escreveu em seu manifesto: “no período surrealista, eu queria criar a iconografia do maravilhoso mundo interior do meu pai Freud…Hoje, o mundo exterior da física transcendeu o da psicologia. Meu pai hoje é o Dr. Heisenberg.”

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